“Se a ciência nos ensinou que viemos do pó e a religião nos disse que voltaremos ao pó, por que, no meio do caminho, nos convencemos de que somos donos de tudo?”
Se você nasceu no Brasil, a cena é familiar. O Seu Madruga, com seu chapéu amassado e sua camiseta preta, fugindo da cobrança do aluguel do Senhor Barriga. É engraçado, é a cara da nossa infância, e a gente torce por ele. Afinal, quem nunca quis dar um calotezinho na vida?
Pois bem. Este livro não é sobre o Seu Madruga. É sobre nós.
E a Vila, a nossa querida Vila do Chaves, é o Planeta Terra.
A gente vive aqui, ocupa espaço, faz barulho, mas não paga o aluguel. A gente usa a água, a terra, o ar e o tempo, mas não devolve nada. Pior, a gente estraga o que está aqui e ainda reclama que o Senhor Barriga (o planeta) está sendo duro demais na cobrança.
O Senhor Barriga da vida real tem sido paciente, mas ele não tem um coração mole como o da televisão. Quando a conta não fecha, ele cobra. E a cobrança vem em forma de inundações, de secas, de vírus e de calor.
Esse livro é um manifesto para o Seu Madruga que existe dentro de nós. Uma reflexão áspera sobre a nossa mentalidade do “posso”, que nos fez acreditar que a Vila é nossa, que o aluguel é opcional e que a paciência do dono é infinita.
Nós esquecemos que, enquanto a gente vive na vila em modo de posse, a minhoca, que não tem voz, que não tem nada, vive em modo de convivência. Ela paga o aluguel com o seu trabalho, ela nutre o solo, ela é a base de tudo. Ela nos mostra que a vida não é sobre dominar, mas sobre pertencer.
Este não é um livro de ciência, é um chamado. Uma provocação para que a gente pare de fugir do Senhor Barriga e comece a aprender com a minhoca.
O que a gente faz quando não pode mais fugir? A gente para de se comportar como o Seu Madruga e se torna a solução.
A maioria das histórias sobre a origem do mundo, das mais antigas às mais recentes, nos coloca em uma posição de destaque. Somos o projeto final, a obra-prima, a coroa da criação. E junto com esse status, veio um verbo perigoso: “dominarás”.
Não importa a tradução, a interpretação ou a fonte. Esse verbo se tornou o nosso mantra silencioso. Ele foi o primeiro bug instalado no nosso sistema. Ele nos deu a permissão, ou melhor, a ordem, de enxergar o planeta como um recurso, e não como um lar.
A partir do momento em que fomos ensinados que a Terra era nossa para dominarmos, nos desconectamos do espírito da minhoca. Deixamos de ser parte de um todo, para nos tornarmos o topo de uma pirâmide. O problema não foi a história, foi o que fizemos com o seu verbo mais perigoso. E o planeta se tornou o nosso quintal, a nossa propriedade, e não um parceiro de convivência.
A mentalidade do “dominarás” nos deu um senso de propriedade, mas também nos deu um senso de distância. O paraíso se tornou um lugar que perdemos, e a Terra, um vale de lágrimas para ser explorado.
O sagrado se mudou para o céu, e o nosso planeta se tornou apenas matéria-prima.
Assim, o homem deixou de reverenciar o rio como uma entidade viva, para vê-lo como um recurso a ser represado. A floresta deixou de ser um templo, para ser uma fonte de madeira. O animal, que já foi um irmão em espírito, virou apenas gado ou caça.
Essa separação, esse distanciamento entre o que é “sagrado” (nós, o céu) e o que é “mundano” (a Terra), foi o primeiro grande passo para o bug do “posso”. A gente só destrói o que não considera sagrado.
Por muito tempo, a ciência foi a nova religião. E seu verbo sagrado, o “conhecimento”, veio com uma nova ordem: “conhecimento é poder”.
Não há nada de errado com a busca pelo conhecimento. O problema é a intenção por trás dele. A ciência, que poderia ter sido a nossa maior ferramenta de reconexão, se tornou um motor para a desconexão. Ela nos ensinou a ver o rio não como uma entidade viva, mas como uma fonte de energia a ser controlada. A floresta não como um ecossistema complexo, mas como uma matéria-prima a ser processada. O corpo humano não como uma manifestação do espírito, mas como uma máquina a ser reparada.
Assim, o “dominarás” se tornou mais técnico, mais preciso, mais letal. Deixamos de usar a fé para nos desconectar da natureza e passamos a usar a razão. O bug do “posso” foi atualizado.
A história do homem é um ciclo de busca. Buscamos respostas na fé e na razão. E em ambas, encontramos a mesma permissão: a de nos sentirmos especiais.
A religião nos colocou no centro da criação. A ciência nos colocou no topo da cadeia evolutiva. As duas narrativas, em sua essência, nos deram um trono. E com um trono, veio a coroa do “posso”.
Não importa se a nossa autoridade veio de um texto sagrado ou de uma equação complexa. O resultado foi o mesmo: um distanciamento fatal. Um buraco cada vez maior entre nós e o planeta.
Assim, o homem se tornou uma espécie de fantasma, vivendo na Vila do Chaves, mas convencido de que o mundo real é a sua própria mente. Esquecemos que o chão sob nossos pés, o ar que respiramos e a água que bebemos não são recursos, são a nossa conexão.
O bug do “posso” é a certeza de que a nossa existência é uma posse, e não um privilégio de convivência.
O mundo, para a minhoca, não tem cor, nem som, nem forma. O mundo, para a minhoca, é um pulso. Uma frequência. O mundo é a terra sob o seu corpo, que ela sente, que ela come, que ela vive.
Ela não tem os olhos para julgar a beleza de uma flor ou a imponência de uma montanha. Ela não tem a audição para ouvir o canto de um pássaro ou o discurso de um líder. A sua sabedoria está na única coisa que ela sabe fazer: existir e pertencer.
A minhoca não domina. Ela não possui. Ela simplesmente faz o que precisa ser feito.
Ela come a terra morta, e o que sai do seu corpo é a terra viva. Ela não pensa em lucro, em poder, em status. Ela pensa em coexistência. Ela se move pelo solo, sem preconceitos, por um puro espírito de compartilhamento, ajudando o todo a ser um só.
Enquanto o homem usa as mãos para construir muros e fábricas, a minhoca usa o seu corpo para criar pontes e nutrir o solo.
A sabedoria da minhoca não é uma filosofia complexa, mas uma prática simples. É uma mudança de verbo.
A minhoca nos ensina a parar de nos perguntarmos “o que eu posso tirar da vida?” e a começar a nos perguntarmos “o que eu posso devolver à vida?”.
Aplicar a sabedoria da minhoca é:
A sabedoria da minhoca é o antídoto para o bug do “posso”. É o que nos lembra que a vida não é um jogo de posse, mas um ciclo de compartilhamento.
O manifesto da minhoca não tem uma conclusão. Ele não oferece uma solução mágica, um aplicativo, um governo ou uma nova religião que irá nos salvar. O mundo, afinal, não precisa ser salvo por nós.
A verdade é que a jornada de volta não é um caminho que a gente percorre com os pés, mas com a cabeça. A cura para o bug do “posso” não é uma grande ação, mas uma pequena decisão.
É a decisão de olhar para o chão e ver a minhoca não como um verme, mas como um professor. É a decisão de ver o rio não como um recurso, mas como um parceiro. É a decisão de se enxergar não como o dominador, mas como o convidado na vila.
“Quando você, finalmente, vai decidir ser a minhoca do sistema?”
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